Frühling

6 Junho, 2009

Dado o tempo imperdoável que fiquei longe do blogue, tento mais uma vez vencer a preguiça.

O inverno passou, a primavera está no finzinho, praticamente verão, com os jornais anunciando “afrikanisches Wetter” (clima africano), pelas temperaturas de 28 graus, um dia, por meia hora. Esta semana, logo depois da meia hora “senegalesa”, chegou uma frente fria – sim, aqui elas chegam no verão -, e a temperatura despencou até um dígito à noite, com geadas nas regiões mais altas. Em pensar que vi alguém se perguntar em São Paulo, num dia de 32C em julho, por que só há veranicos, mas nunca invernicos… Aqui o fenômeno acontece e pode até ter data marcada. Em maio, entre os dias 10 e 15, há os dias dos chamados “Eisheilige” (santos geladinhos, numa tradução muito livre), que são dias em que sempre esfria na Europa central.

Primavera lembra florzinha, certo? Bom, depois desta primavera em clima temperado típico, a lembrança será sempre de natureza se reproduzindo alucinadamente. Já tinha passado por experiência similar em Nova York, mas as proporções aqui são muito distintas, o que deveria ser um dado óbvio, considerando que o que menos há em Nova York seja natureza e Berlim seja, pelo menos segundo alguma fonte que li, a capital mais verde do mundo. Parques aqui são sinônimo de floresta, onde se formam algumas cenas bonitas, que até podem fazer lembrar algo que tenha inspirado Monet.

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Primeiro vieram os insetos. Logo que acabou a era glacial e as folhas ressurgiram quase de um dia para o outro, apareceram pernilongos em dimensões pré-históricas, grandes de dar orgulho à indústria alemã mais pesada. Sem exagero, cada um dava uns 15 dos brasileiros, com uns bons 3 cm de comprimento, e vinham em quantidades só comparáveis às cigarras de Brasília. Para dar uma idéia da dimensão, resolvi contar quantos havia num único vidro da minha sala da embaixada (a qual é inteira de vidros), e o resultado foi 58. 58 pernilongos gigantes sobre uma superfície que deve ser de 1m x 1m. Claro que nem pensei em abrir alguma janela, o que ainda não era imperativo, mas me deixou profundamente preocupado, já que o “afrikanisches Wetter” com duas consequências previsíveis: pernilongos em quantidades ainda maiores e calor de verdade que obrigue a abrir as janelas. Detalhe: praticamente não há ar-condicionado na Alemanha e a Embaixada não é uma exceção. Quando eu já planejava viver numa bolha ou com uma redinha mosquiteira do Nordeste 24h por dia, surgiu um passarinho, que resolveu tudo. Dentro de uma semana, ele e os amiguinhos dele tinham simplesmente comido TODOS os mosquitos gigantes. Como eles também estão se reproduzindo alucidamentemente, os mosquitos rapidamente deixaram de ser uma ameaça aos humanos e passaram para o lugar que lhes é de direito na parte mais baixa da cadeia alimentar. Com isso, concluí duas coisas: primeiro que aqui até a natureza é organizada, e segundo que passarinho brasileiro é muito folgado.

O mais impressionante, entretanto, não são os pernilongos, os passarinhos, os milhares de coelhinhos que do nada apareceram no parque. O mais impressionante é a reprodução das plantas. Talvez porque não haja tantos insetos como nos trópicos (mesmo porque os passarinhos comem os que há), as plantas aqui resolveram ser independentes no quesito reprodução. O resultado são núvens de pólen, em volumes tão impressionantes que a imagem faz pensar, por um centésimo de segundo, que está nevando. Quem tem alergia, deve ficar longe e manter as janelas bem fechadas, pois qualquer fresta é suficiente para que tufos enormes invadam e se acumulem pelos cantos, para terror de quem limpa e dos alérgicos.

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Quick comments.

1. Bebê alemão não chora. Não sei ainda o que fazem com as criancinhas logo que nascem, mas elas não abrem a boca, não choram, não fazem nada. São simplesmente lindinhas, cabeçudas, comportadas e já imbuídas do espírito alemão de ordem. Outro dia vi um menininho no carrinho – grandinho, esse já falava -, apontando desesperado para umas pessoas no meio da rua, aos berros, dizendo que tinham que sair da rua, que ali não é lugar de pedestres. Algumas crianças andam de carrinho até bem crescidas ou então de bicicleta (as menorzinhas numa versão geralmente de madeira, sem pedais), mas estranhamente quase nunca a pé. E a verdade é que elas são bem raras, pois, além de os alemães terem cada vez menos filhos, o costume local é que os pequenos vão pra cama às 19h (!) e que não sejam aceitos em muitos estabelecimentos.

2. Se não se aceita criança, aceita-se cachorro. Tal como as crianças, cachorros alemães são comportadíssimos, mal se notam nas lojas, transporte público ou mesmo nos restaurantes, onde são muito bem vindos. Acreditem ou não, é freqüente o garçom trazer uma vazilha de água para o bichinho, que não late, não rosna, não corre, não pula, não baba, não se meche a menos que o dono se mecha antes. A parte estranha é que não se nota muito carinho pelos bichinhos (assim como pelas crianças). Não ouse passar a mão no cachorro de alguém nem olhe muito para ele e leve a sério a cara nada simpática do dono, não muito disposto à interação.

3. Velhinha alemã é grandona. Sabem aquelas vovozinhas pequenininhas, que vão encolhendo cada vez mais conforme passam os anos? Aqui elas têm 1,90m. São umas velhonas enormes, ombrudas, fortonas e nada boazinhas. A melhor opção com elas é não tomar nenhuma iniciativa, nem mesmo para ser educado. Se não entendeu, então experimente ceder o lugar para uma delas no metrô e receba em troca uma bronca, pois não sou inválida. Fuja das velhinhas!

5. Alemão não sabe estacionar. Eles fabricam os melhores carros do mundo, são fanáticos por carros, mas não sabem fazer uma balisa simples. Para quem não entendeu, estas são algumas fotos feitas com o celular:

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