Deutsche Bürokratie

4 Fevereiro, 2009

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Clichê: depois de longo inverno (que ainda não acabou…), volto ao blogue. Fez frio. Logo nas primeiras semanas de janeiro: teve velhinho que morreu, cano que estourou, acidente de trânsito, atraso em aeroportos, teve cisne que dormiu demais no lago e amanheceu preso no gelo. Por umas duas semanas, as temperaturas foram assunto. Não há muito consenso quanto à mínima, mas na cidade, onde é mais quentinho, foi algo em torno de -20, ficando claro o porquê das janelas tão grossas e tão vedadas. Teve quem reclamou e quem gostou. No zoológico, o Knut se sentiu em casa, mas as girafas tiveram de ser recolhidas para não escorregar e quebrar as pernonas. Sobre as águas do Spree se formou uma camada de gelo, que era periodicamente quebrada por uma espécie de guarda costeira, e o rio virou um frozen marguerita gigante. Agora as temperaturas negativas com dois dígitos passaram, mas de algum lugar ainda vêm placas enormes de gelo, que deslizam na frente da minha janela. A principal conclusão que tiramos de tudo isso, no entanto, é que gaivotas não sentem frio. Não tenho certeza de se elas já estavam ali quando cheguei em agosto, mas, logo que o clima começou a esfriar, elas foram-se juntando às dezenas e depois às centenas no rio.

Rio Spree

Depois vieram os corvos, os patos, os gansos e finalmente os cisnes. Quando esfriou mais, os corvos resolveram ir embora – pra Toscana talvez -, mas o resto da bicharada ficou, firme e forte, no rio semi-congelado. Eu achei tudo isso bem divertido. Pelo menos no começo: depois o branquinho que cobria as ruas foi ficando cinzinha, num compactado de neve e sujeira escorregadio que já não tinha muita graça. Pelo menos essa sujeira não tem cheiro; ou talvez tenha, e eu que não sinto, vez que o frio intenso compromete o olfato. Lembram-se daquela vista do primeiro post? (isto foi antes de o rio congelar):

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No meio dessa geladeira toda (ainda continua mais frio do que a minha geladeira), tive algumas experiências dignas de nota.

Acho que todo mundo já teve sua experiência com burocracias de todos os tipos. No Brasil somos craques em inventar procedimentos e papelinhos que ninguém sabe para que servem (“papelinhos” é como os portugueses chamam os papéizinhos), milhares de exigências, sempre com muitas taxas a ser pagas no banco, claro. Na minha fase estagiário,  “fazia” justiça federal e, para tirar xerox de – digamos – uma mísera folhinha dos autos, tinha que ir ao banco, no subsolo, preencher uma guia x de recolhimento em quatro vias. Eu disse quatro? Isso mesmo: quatro vias pra tirar um xerox. Daí tinha que fazer a fila, juntamente com vários outros estagiários, boys e advogados de pouco ou nenhum sucesso, que não têm boys ou estagiários pra se aborrecer por eles. Burocracia é sinônimo de chateação, ineficiência, complicações desnecessárias e muitos a associam a países latinos, especialmente com Itália e Portugal, a que tanto devemos o que temos de caótico. A verdade, no entanto, é que os latinos não passam de aprendizes nessa arte, entre cujos grandes mestres certamente estão os alemães. Afinal, Kafka não se inspirou no nada.

Na saga impossível de definir um povo, podemos dizer com tranqüilidade é que alemão gosta de tudo muito bem explicadinho, planejado, com prazos respeitados, por escrito e, de preferência, com muitos carimbos. Eles a-do-ram carimbos. Escreva uma bobagem qualquer, aponha um carimbo e eles acham que aquilo é a verdade divina. Uma diferença óbvia existe, entretanto, com a burocracia brasileira: em geral, as coisas não deixam de acontecer por conta da burocracia. Existe sempre um procedimento claro a ser seguido, talvez você não goste dele, mas no fim a coisa funciona. Para tudo há um método e existe sempre alguém que poderá explicar por que fazer daquela maneira aparentemente complicada. O problema é quando exageram…

Fiz uma assinatura de TV a cabo. Milhares de canais, sinal digital, com aparelhinho que grava, que volta pra trás, avisa quando vão passar os programas e tem até uma vídeo locadora on-line, além de várias outras funções que estão ali e de que provavelmente nunca ficarei sabendo. Fantástico, não? Seria, não estivesse tudo em língua bárbara. O que não é original eles dublam. Mas, uma vez superado o trauma de ver The Nanny em alemão, me deparei com o seguinte: toda programação classificada para 16 anos de idade ou mais vem bloqueada, e acompanhada pela mensagem de que, para desbloquear, insira o número PIN. Só um parêntesis: tudo aqui tem número PIN. Mais um pouco você compra água mineral e vem com um PIN pra abrir a tampa. No site do banco (the horrors!), tem o número de usuário (de apenas 10 dígitos), o PIN, o TAN e o BEN (praticamente uma família chinesa), sendo que estes dois últimos, na verdade, são duas listas de nada menos do que 100 (cem) códigos diferentes de que você precisa para, digamos, pagara a conta de celular… Voltando à televisão: a estória que se segue é verdadeira e só pode ser fruto de alguma mente sádica que decidiu criar um sistema de restrição de idade tal que a criançada não pudesse burlar (e que é quase à prova de adultos também). Eu pus o PIN e nada – dizia que eu não tinha o PIN. Confere a cartinha, vê que o número chama mesmo PIN, tenta novamente e: você não possui o número PIN. Depois de várias conferências percebi que tinha uma anotação na carta: para ter o PIN para o sistema de verificação de idade, faça o cadastro no site x. Ou seja, eu precisava de outro PIN que não era aquele cuja função ainda desconheço. Entrei na internet, procurei a página do tal do sistema de verificação de idade – que eles gostam de chamar com uma palavra só, Altersverifikationssystem -, e cliquei em cadastrar. Fui redirecionado para outra página, em que se pedia nome do usuário e senha. Depois de alguns momentos achando que alguma coisa tinha saído errado, cliquei em mais um botão cadastrar. Fui para nova página de cadastro, na qual perguntam além de tudo que seria possível sobre mim, um outro código de 11 dígitos que teria vindo em alguma outra correspondência da tv a cabo. Nessa altura, eu nem me lembrava mais por que eu estava fazendo tudo aquilo. Em pensar que era só para ter a possibilidade de assistir a programas que não fossem dos canais infantis… Pega todas as correspondências (que são muitas, eles mandam até carta pra avisar que vão mandar outra carta) e vai atrás do tal do número. Quando já estava a ponto de cometer um ato de loucura, ligando para o serviço de atendimento ao cliente (vocês não têm vaga idéia do que é o teleatendimento alemão), achei: ele estava numa das cartas, juntamente com uns outros 4 códigos de tamanhos variados, com nomes tipo PUK, BIN, TON. Insere o código e, umas oito páginas depois, Sie haben sich erfolgreich angemeldet!: você se cadastrou com sucesso, com exclamação e tudo. Eba, que sucesso!! Depois de me sentir como criança que supera a primeira fase no vídeo-game novo, caí na real que ainda não tinha feito nada. Volta para a página do sistema de verificação de idade, faz login. Preenche milhares de dados novamente e, várias telas depois, me parabenizam novamente por ter completado todos os procedimentos até então e dizem que receberei um e-mail com as novas instruções. Novas instruções?! Nessa hora eu percebi que era gincana mesmo, mas assumi como desafio de honra completar todas as provas. Ignorado o fato que o  e-mail só tenha vindo no dia seguinte, o que interessa é o que nele se dizia: eu deveria preencher o formulário anexo (isso mesmo, ainda não tinha acabado) e – agora sim, pasmem… – levá-lo até uma agência do correio, onde um funcionário conferirá a autenticidade dos dados (calma ainda não acabou), preencherá novo formulário que apenas ele possui e o enviará (por correio, claro) para a Telecom, que, de posse das informações (pensou que era só isso?), avaliará a possibilidade de desbloqueio. Nessa nem o coitadinho do Kafka acreditaria. Tá, eu já estava quase me conformando em assistir apenas novelinhas da tarde, programa de canções bávaras e vários desenhos animados, mas não poderia desistir agora, ainda que apenas pra ver se o sistema funcionava mesmo ou se era tudo de mentira, já que ninguém chegaria até o fim para verificar. Preenchi o formulário, imprimi e fui ao correio. Lá a funcionária me atendeu toda séria, como se não se tratasse de uma gincana. Pediu um Ausweiss (documento de identidade), eu dei o meu, emitido pelo Auswärtiges Amt (o Itamaraty deles), vermelho, parecido com aquele que a Divisão do Pessoal faz em Brasília (inclusive também não cabe na carteira). A alemoa olhou pra carteirinha, olhou, olhou e disse que não valia. Perguntei por quê, ela disse que aquele é um Protokollausweiss e que eu tinha que apresentar um documento emitido pela polícia. Expliquei que eu não sou autorizado a ter um documento emitido pela polícia, que sou estrangeiro etc., mas ela teimou que aquele não valia. Só lembrando: isso tudo era para verificar que eu tenho mais de 16/18 anos, e bastaria a pessoa olhar pra mim. Muito magnânima, disse que eu poderia voltar com o passaporte, que ela poderia verificar com base nele. Nesse momento, me lembrei que estava com a habilitação brasileira (estava para ir tirar a carteira de motorista também). Mostrei e disse que era emitida pela polícia brasileira. Os olhos dela brilharam, percorreram o documento, mas logo ela emendou que infelizmente não poderia atestar, pois eu não tinha idade suficiente, me mostrando a data em 1998, quando foi emitida pela primeira vez. Depois da devida explicação, ela disse que a carteira estava vencida, apontando desta vez para a data de reemissão. Daí eu traduzi o documento todo, ela ficou satisfeita (sendo que eu poderia ter dito qualquer coisa), preencheu o formulário, imprimiu, fechou num envelope, e assim se cumpria a fase do chefão. Um dia depois recebi o e-mail com a confirmação de liberação do novo PIN (pelo menos o correio é rápido!). Devem ter levado uns quatro dias no total.

Mudando de assunto e atendendo a pedidos, aí vão fotos do resto da cozinha, mesmo porque o resto da casa ainda não está digna de aparecer.

Vista de frente:

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Vista lateral:

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Destaque para o forno:

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Na cozinha futurísta, nada é muito tradicional. Notem os dois botões que há nas laterais.

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Você aperta o com a setinha pra baixo e o forno abre:

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Além disso, tem um milhão de programas, para cada tipo de comida. Tá, na verdade são uns 10 programas, incluindo um que me chamou a atenção: Selbstreinigung (auto-limpeza). Achei que era balela, mas o treco existe mesmo. Nesse programa, o forno aquece até 500 graus (Célsius!, aqui eles usam medidas civilizadas), carboniza o que quer que esteja lá dentro e você só precisa passar um paninho úmido, para remover as cinzas que tiverem sobrado. Sim, dá medo.