Assuntos domésticos

9 Novembro, 2008

Hoje não amanheceu. Pelo menos a iluminação pública não foi desligada. Às 16:30, quando o sol agora se põe, mal se notou o momento em que a noite chegou oficialmente. No sistema meteorológico, marcava que chovia, mas era uma chuva diferente, como se as gotas – minúsculas – tivessem parado no meio do caminho, estáticas no ar. A paisagem que se via da minha sala simplesmente desapareceu no cinza. Da Torre de TV, antes onipresente, e a poucas quadras da embaixada, não se via nem esboço. As árvores, amarelíssimas de tanto outono, já estão quase completamente desfolhadas, contribuindo ainda mais para o cinza.

Apesar do aspecto, está mais quente do que há uma semana, e tivemos máxima de 10 graus, o que foi suficiente pra desligar a calefação. Como as construções aqui são vedadíssimas, esperando a nova era glaciar, tem que esfriar mesmo do lado de fora pra se fazer sentir aqui dentro.

E por falar em calefação, a de casa é uma das atrações do apartamento que tanto trabalho deu pra alugar. É o que em língua bárbara se chama Fußbodenheitzung. Essa palavrinha quer dizer que o aquecimento é no chão. Não tem radiadores de água, nem aqueles elétricos medonhos que vi em NY, nem saída de ar quente. As vantagens são evidentes. O apartamento fica quentinho por igual, sem aquela coisa de ar quente em cima, ar frio em baixo, e sem que se perceba de onde está vindo o calor. Quer dizer: de vez em quando dá pra sentir o chão quentinho, especialmente no banheiro, e é uma delícia andar descalço. Outra vantagem é que o ar não fica ressecado, pois não há nenhuma fonte forte de calor. O nariz não sangra e, por enquanto, não deu aquelas coceiras horríveis que todo mundo tem no inverno nos EUA. O piso esquenta até a temperatura escolhida (uns 20 e poucos graus) e essa temperatura passa lentamente para o resto do ambiente. A desvantagem é o lentamente. Leva um tempo para que a temperatura do chão aqueça o resto do ambiente.

Outra coisa diferente (pelo menos eu nunca tinha visto) é o Induktionskochfeld, que é o nome que os locais acharam apropriado para chamar o fogão. “Fogão”, por sua vez, me lembra um professor escocês que tive, que dizia que português temos coisas com nomes que parecem língua tribal, e sempre citava o fogão – “big fire” – que para ele parece nome de divindade indígena. No caso dos eletrodomésticos alemães, boa parte deles tem aqueles nomes típicos, que descrevem quase pictoricamente o aparelho. A geladeira é Kühlschrank (armário que esfria), a lava-louça é Geschirrspüler (limpador de louça) e Dunstabzugshaube é a palavra que acharam apropriada pro exaustor. A máquina de lavar roupas é fácil, Waschemaschine, mas a de secar é mais complicada: Wäschetrocknermaschine (máquina de secar a roupa). E muito cuidado para não confundir com a minha, uma Waschtrocknermaschine. Essa mínima diferença de tirar o trema e um “e” muda o nominho para máquina que lava e seca.

Ainda no tema língua alemã, ouvi uma estorinha engraçada essa semana. Essas palavras compridas, nada mais são do que a justaposição de outras palavras menores, para criar palavras novas, em geral para significados mais e mais precisos. A língua é muito maleável nesse aspecto (e só nesse); a rigor, não precisariam importar palavras de outras línguas para criar novos vocábulos, bastando usar os radicais já existentes e montar palavras novas. Na prática, todo mundo poderia criar essas palavras, como de fato acontece. O problema é que às vezes as palavras já foram criadas, e o estrangeiro que não souber disso pode fazer alguma confusão, como é o caso de que ouvi. Aconteceu que o português (era um português mesmo, não é piada) que mora aqui na Alemanha foi visitar a mãe em Portugal. Quando ele voltou, ligou para a amiga alemã, que trabalha na nossa embaixada aqui em Berlim e contou a ela que lhe tinha trazido um presentinho. Ele trouxe um bolo que a mãe dele tinha feito. Só que quando ele foi dizer pra ela o que era – e ele quis dizer que era um “bolo de mãe”, querendo dizer um daqueles bolos que só mãe faz –, ele criou uma palavra que para ele serviria: Mutterkuchen. Mutter=mãe e Kuchen=bolo. Mutter+Kuchen=bolo de mãe ou bolo materno, certo? Seria, não fosse que Mutterkuchen é placenta… Deve ter sido constrangedor.

Mas voltando ao Induktionskochfeld, faltou dizer que é um fogão de indução (a palavra quer dizer “campo de cozinhar de indução”). Essa é a parte que eu não conhecia. Talvez seja eu o caipira inguinorante, mas, imaginando que mais alguém é como eu, tirei umas fotinhos pra ajudar na descrição. Esse é o fogão:

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Vários de vocês devem estar pensando, ah!, é um daqueles fogões com resistência elétrica!, que todo mundo está careca de conhecer. Não, não é. Apesar de parecer a mesma coisa, não é isso. Notem aquela rodinha de metal que há no centro na parte de baixo do “tabuleiro”. Ela é a responsável por controlar a assombração que vou contar.

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Trata-se de um ímã, solto, que fica grudado exatamente naquele ponto, mas que sai na mão, basta simplesmente pegá-lo.

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Pra que tudo aconteça, você liga o fogão num dos botões desenhados à esquerda. Daí ele faz um bipe e se acendem umas luzinhas.

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Para ligar uma das bocas, você inclina o breguetinho redondo na direção da boca desejada.

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Ele apita de novo e seleciona a boca. Daí você roda esse botão do demo e regula, assim, a intensidade. Muitos apitos sempre.

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Tá, até aí é só um jeito fancy de ligar. Mas tem o seguinte: se você não puser uma panela apropriada sobre a boca, ela não esquenta. Você liga, seleciona a boca, aumenta para a potência máxima e a boca não esquenta. Daí você põe uma penela apropriada e acontece: a ela fica quente. Agora notem, tira a panela quente, põe a mão sobre a boca e – juro – continua fria. O milagre só acontece com panelas que tenham propriedades eletromagnéticas de algum tipo. Na prática, você testa se vai funcionar com o botão redondo do demo, que é um ímã, lembra? Se ele for atraído pela panela, então o calor vai “aparecer”.

Tirando o fato de que ele deve ser muito – muito – caro (é do apartamento, eu não paguei), e de que deve haver o risco de alguma polícia secreta confundi-lo com experimentos de weapons of mass distruction, esse fogão tem suas vantagens. Em primeiro lugar, não tem aquela coisa chatinha dos fogões elétricos convencionais de esperar a resistência esfriar, daí esperar o vidro esfriar para só então a panela começar a esfriar (ou esquentar tudo, se for o caso). Como o estímulo é diretamente na panela, esta responde imediatamente aos comandos. Segundo, o estímulo é muito intenso; a panela esquenta muito mais rapidamente do que sobre uma fonte de calor. Como o vidro não esquenta, ou melhor, esquenta depois, com o contato com a panela quente, é muito seguro, e a gordura e outras coisas que eventualmente caem fora não queimam. Por fim, ele é muito Energiesparend (poupa energia), o que para o alemão deve ser a grande vantagem.

Proteção ambiental e economia de energia são dois dos principais esportes nacionais, certamente concorrente da Bundes Liga (campeonato nacional de futebol). Eles gastam muito dinheiro e energia com reciclagem e produtos e tecnologias mais umweltfreundlich (environment friendly). Essas tecnologias são normalmente muito caras, exigindo investimento inicial elevado. Existe, por exemplo, um novo tipo de aquecimento geotérmico, que antes era apenas usado industrialmente, mas que agora já tem versões domésticas. Uma rede de canos de água desce até as profundezas do subsolo e usa o calor ali existente para aquecer a edificação da superfície. Essa brincadeira engenhosa custa caro, mas gera economia de energia que se estimam compensar os custos em aproximadamente 12 anos. Acreditem ou não, para o alemão, esse é um bom negócio. Eles pensam sempre a longo prazo e provavelmente não se imaginam mudando de casa tão já, tanto que a nova tecnologia está virando moda entre quem pode pagá-la. Outra pessoa provavelmente pensaria que esse dinheiro renderia muito mais, em 12 anos, se bem aplicado (mas não na bolsa, pelamordedeus!).