Die Wohnung 1.0

23 Setembro, 2008

Apesar do nome, a Oktoberfest acontece em setembro. A festa é típica da Baviera, e aqui em Berlim só “participamos” em restaurantes típicos do sul ou em programas de televisão, em que os apresentadores com trajes típicos, fazem uma baita festa para umas bandas de polca e outros talentos especiais, como uma “mocinha” que consegue levar 18 Maße (lê-se “másse”) ao mesmo tempo. Um Maß é aquela canequinha típica de cerveja de um litro (isso mesmo, um litro). Quando cheia, cada uma pesa mais de dois quilos, com o que a mocinha talentosa carrega algo como 52kg de cerveja + canecas de uma vez só, segundo o comentarista empolgadíssimo.

Nesse clima de Oktoberfest, com o sol se pondo cada vez mais cedo, conto um dos pontos mais importantes de quem está chegando a uma cidade nova: encontrar uma casa, ou melhor, uma Wohnung (literalmente moradia, mas aqui isso quer dizer apartamento)

Já contei antes do apartamento que parecia uma casa grande, com pé direito lá pelos 5 metros, clarabóias por todas as partes, salas enormes, um banheiro social gigante e cozinha minúscula. Esse apartamento era bem bizarrinho (vejam aqui) e ainda por cima o corretor era aquele que não podia esperar dois minutos. Berlim, diferentemente de outras grandes capitais européias, ainda não sofreu demais com especulação imobiliária. De maneira geral, os preços são bem mais amigáveis do que em outros lugares e com a vantagem de que, por ser uma cidade em construção, é possível encontrar imóveis novos. Isso não é garantia absoluta, entretanto, de que você vai encontrar imóveis mais ou menos do jeito que você quer. No meu caso, queria algo que não fosse grande demais (menos de 200m2) e com dois banheiros completos. À primeira vista, não estou pedindo grande coisa, mas quem conhece imóveis europeus sabe que o que eu queria é um desafio.

Depois de um tempo em Berlim, cai a ficha de tudo que aconteceu por aqui na história recente. Muitos prédios têm marcas de balas, por todos os lados vêem-se reformas, construções com guindastes enormes. A cidade é mesmo um canteiro de obras e pelo jeito faz tempo que é desse jeito, sempre mudando, sempre palco de “agitações”. Depois do bombardeio aliado à cidade, no fim da Segunda Guerra, 80% ficou destruído. As imagens históricas são impressionantes e difíceis de se aceitar hoje, quando vemos tudo (re)construído. E eles gostam de reconstruir. Agora estão se esforçando pra pôr abaixo o prédio sede do governo comunista. O prédio praticamente não existe mais, ficaram apenas as fundações com uns blocos enormes de concreto em cima. O projeto gerou polêmica, pois há quem ache que o comunismo era legal e gostaria de manter o predião feio ainda que só de recuerdo. A idéia é demoli-lo pra reconstruir no lugar o que havia antes: o palácio do Kaiser da Prússia, do jeitinho que ele era. Quando a cidade foi dividida, Stalin ordenou que o palácio – destruído – nunca se reconstruísse, pois era um símbolo da identidade e do poder nacional. No lugar, construíram o prédio comunista feioso. Aliás, o lado oriental é cheio de espigões horrorosos que lembram as quadras de Brasília. Mas voltando ao palácio, o problema é que isso fica ao lado do Berliner Dom (catedral da cidade), que pode ter sua estrutura abalada se usarem dinamite. Ainda não entendi como vão derrubar a coisa sem explosivos, mas estou quase indo lá sugerir que contratem uma equipe de romenos, dêem uma marretinha pra cada um e que fiquem quebrando as coisas em troca de uma miséria qualquer. Uma hora terminam.

Bom, então houve várias guerras, destruição quase completa da cidade, depois veio a divisão, o comunismo de um lado, o isolamento do outro e, como vocês sabem, tudo isso acabou ainda não tem 20 anos. Seria demais imaginar que quem viveu esse processo não tenha seua hábitos marcados. Não sei o resto da Alemanha, mas os berlinenses são quase pré-capitalistas. Você vai à IKEA e – advinha – eles também não aceitam cartão de crédito. O “também” é pra deixar claro que quase nenhum estabelecimento funciona com o instrumento mágico do consumo. E ainda por cima tem um aviso dizendo que eles aceitam EC-Karte (cartão de débito) para compras até 2500 euros. Acima disso, “Geld, natürlich” (=”dinheiro, obviamente”), escrito assim com todas as letras. Ou seja: se você for comprar muita coisa, precisa levar um carrinho de dinheiro. Outro dia, num passeio para conhecer o bairro Kreutzberg, vi uma loja de nada menos do que fita-cassete. Lembram? Eram aquelas que tocavam música e que a gente enrolava com a ponta da caneta! No meu quarto de hotel tem uma tevê daquelas de tubo (o Fábio diria que é uma Telefunken, mas a Telefunken deve ter falido) e – juro – um vídeo cassete! (Será que eles esperam que alguém use?) O hotel também é um dos poucos da cidade com ar-condicionado, um luxo quase exótico por aqui. E nos supermercados existem umas máquinas, tipo das que vendem coisas. Só que essas são máquinas que compram Pfanne (garrafas vazias). Você enfia a garrafa num buraco todo cheio de luzes piscando e a máquina cospe um papelzinho com um crédito. As que compram as de plástico dão mais dinheiro e destroem a garrafa na hora. As pessoas vão com sacolas enormes de garrafas pro supermercado, vendem tudo e recebem alguns centavos pra torrar nas compras (e o pior é que eu também já estou fazendo isso). Sacola de supermercado aqui é paga. A vantagem é que elas são no estilo das portas de que falei outra vez: super fortes, de um plástico grosso (tem de pano também, mas é bem mais caro), dá pra pôr a compra inteira dentro de uma só que ela agüenta e você ainda guarda pras próximas compras.

A mentalidade alemã do pós-guerra e do período comunista ainda é o que rege as relações de consumo aqui. Apesar do PIB uns 2 trilhões de dólares maior do que o brasileiro, bem distribuído por uma população umas quatro vezes menor do que a nossa, essa riqueza toda não se converteu em consumo, para tristeza do governo alemão que não sabe o que fazer para que o povo gaste seu dinheirinho. As pessoas ainda vivem como se estivessem em períodos de escassez e necessidade. Ninguém joga nada fora. Você tem alguma coisa velha que não quer mais?, então você aluga um espacinho num dos dezenas de mercados de pulga e vende suas porcarias por quase nada. O mais incrível é que sempre aparece alguém que compra.

Essa digressão toda foi pra mostrar que um apartamento pequeno com dois banheiros pode ser querer demais. Mas não desisti. Logo visitei um que vinha vigiando na internet desde março provavelmente, quando me decidi pela remoção pra cá. É um apartamento de 156m2, perto da embaixada, super bem localizado em Mitte. Mitte é o bairro que hoje responde pelo nome de “meio”, como se fosse o centro da cidade. Na verdade, é difícil identificar um centro aqui. Não há um ponto para que tudo converge, onde os metrôs se cruzam, onde existe um terminal de ônibus, onde o trânsito é mais intenso. Antes da queda do muro, parece que esse ponto de referência era a estação de trem/metrô Zoologischer Garten (jardim zoológico, como vocês devem ter concluído). Hoje ninguém imaginaria uma coisa dessas, mesmo porque existe uma Hauptbahnhof (estação principal), que também não vem a ser exatamente referência para ninguém. A cidade é muito “diluída”, o que faz que seja calma e organizada em toda sua extensão, permite que não haja trânsito e garante a segurança de um dos principais meios de transporte urbano, a bicicleta. De qualquer maneira, Mitte é o centro histórico, onde está o pouco que resistiu às bombas ou que foi minuciosamente reconstruído. É também onde estão a maioria dos órgãos da Bundesregierung (governo federal, não pense besteira), ainda que muitos deles, inclusive os ministérios, passem despercebidos a quem anda nas ruas e não nota as plaquinhas ou as bandeiras nos prédios.

Voltando àquele apartamento, visitá-lo foi uma experiência curiosa, com que depois me acostumei: depois de tanto o ver pela internet, era estranho estar no lugar de verdade. É um prédio com jeitão de antigo, mas que foi todo reformado, de modo que o acabamento era muito bom, ainda que do ponto de vista modernidade ele deixasse um pouco a desejar. De qualquer maneira, ele correspondia ao que eu precisava, com dois quartos, dois banheiros, sala e sala de jantar, além da cozinha; assim que logo disse ao corretor que queria ficar com ele. Já estava todo me achando o recordista histórico da embaixada, como o que conseguiu apartamento mais rápido, quando fui informado que uma tal senhora já havia pedido reserva do apartamento e que eu deveria esperar pela resposta definitiva se ela ficaria ou não com ele. Ali começaram as angústias com o primeiro grande choque de civilizações: a demora alemã. Alemães demoram para fazer qualquer coisa. Não tenha pressa, não se estresse. Sexta-feira, não conte com mais ninguém, vez que a Embaixada do Brasil parece ser o único lugar onde alguém trabalha depois das 11h da manhã. Durante a semana, se tem que falar com alguma pessoa, não deixe pro fim do dia, pois a partir das 16h as chances de alcançar alguém no escritório caem em progressão geométrica. Era quinta de manhã quando vi o apartamento, à tarde me informaram da tal senhora, o que significa que não saberia nada até segunda ou terça. Isso pode não ser nada de tempo para um alemão, mas pra mim pareceu uma eternidade. O corretor, vendo a minha aflição, se ofereceu pra trabalhar na sexta e mostrar outros apartamentos. Saí marcando com outros corretores também – a maioria para a semana, claro – e foi aí que começou o festival de apartamentos estranhos, com plantas bizarras, em parte resultado de reformas de prédios antigos, em parte porque eles são estranhos mesmo.

Tem apartamento com banheiro que sai da cozinha, com o quarto de um lado da casa e o banheiro do outro, banheiros com várias portas, cozinha entre o quarto e a sala, com clarabóia no quarto de dormir (será que é para ver as estrelas da cama?), com uma sala enorme, outra sala enorme, e um quartinho apertadinho lá no fundo. You name it. Outra coisa muito esquisita e comum é você ver o apartamento inteiro até que descobre que no banheiro, tem uma outra porta que aparentemente não leva a lugar nenhum. Ledo engano: ela dá pra rua. Por alguma razão, muitos apartamentos têm que ter no mínimo duas portas de entrada. Se eles não conseguem pôr as duas em lugares razoáveis, elas terminam no banheiro ou no quarto de dormir. Num outro apartamento de que me contaram, tudo parecia normal, até que você vê uma escada, no meio da sala, que sobe para o andar acima. Só que o apartamento só tinha um andar, a escada dava em lugar nenhum; ou melhor, no fim dela tinha uma porta que abria no corredor do andar de cima do prédio. E tem um outro diplomata na embaixada que mora num apartamento que tem uma janela de cinco metros de comprimento que dá pro corredor! Você senta na sala e pode observar os vizinhos que passam. Ou eles podem te observar lendo, vendo tevê, comendo etc. Praticamente um zoológico. Alguns apartamentos nem fui ver, apesar da insistência do corretor. Ou eram mal localizados em áreas esquisitas da cidade, ou eram grandes demais. Tamanho é um problema aqui. Quando você passa sua exigência para dois banheiros (como vocês podem notar, essa coisa do banheiro aqui influi muito na nossa vida), os apartamentos que atendem ao seu pedido passam para outra dimensão, alguns chegando aos 300m2 ou mais.

No fim, achei um que seria perfeito. Bom, bonito, novinho, super bem localizado e entra na ajuda de custo. Mas como estava bom demais pra ser verdade, alugá-lo foi muito, MUITO complicado. Mas isso conto no próximo post.