Tem coisa que só vi aqui.
1. Criança com piercing. Tipo criancinha mesmo, uns 4 aninhos no máximo, já todo furadinho.
2. Velhinhos cool. Fim de semana passado vi um velhinho de bengala, todo enrugadinho, curvadinho, com papadinha. Mas era tatuado, usava calça rasgada, toda cheia de bolsos coloridos, brincos, pulseiras metaleiro e anéis bem grandes. Um luxo só o vovô metal. Se bobear a dentadura era dourada.
3. Jaguar auto-escola. Sério. Vi uma vez só, mas existe.
4. Gente com taça de vinho no cinema. Cinema aqui é um exercício mental de paciência e adaptação social. Primeiro você tem que entender os horários das sessões. Para que fazer todo dia no mesmo horário, né? Vamos variar! É melhor verificar muito bem se aquela sessão que você viu ontem existe hoje também. Depois, além de descobrir quais os horários, existe o desafio de saber quais as sessões dubladas e quais as em versão original. A regra aqui é dublar, ou sincronizar, como seria a tradução literal do alemão. Ainda não descobri exatamente porque alguém quereria ver o Batman, por exemplo, falar alemão, mas aqui eles aparentemente acham que isso é bom. Aliás, o Batman, no mesmo cinema passa em inglês em todas as salas, menos na IMAX. Ou seja: na sala tem som especial, tela gi-gan-te, mas o Christian Bale fala o idioma de Goethe (momento diplomata pedante). Quem quer pagar mais caro por isso?
Diante das opções, entrei na sessão do Mamma Mia, já que muita gente fala que o filme é divertido e nem os alemães teriam coragem de dublar um musical (ou não). Seria demais, imaginem!: “Chiquitita, sag mir die Wahrheit.” Não ia dar muito certo. Bom, a sessão está marcada pras 19h45, mas eles poderiam ser mais legais e te contar quando o filme REALMENTE começa. Primeiro você entra e segue para seu lugar, marcado. Depois espera, espera, espera. A luz apaga e começam as propagandas e são 20 minutos pelo menos. Quando você já não agüenta mais, vem uma propaganda do sorvete Magnum, com as pessoas comendo o sorvete lentamente, quebrando a casquinha de chocolate, as amêndoas do recheio e, quando você está prestes a querer comer um, acendem a luz, param tudo e – pasmem – entra um sujeito com uma cestinha vendendo do sorvete. Nem no Texas propaganda é tão agressiva.
Daí apagam a luz de novo e dá-lhe trailer. Quando o filme finalmente começa, passou pelo menos meia hora. Conclusão, considerando que o lugar é marcado, dá pra entrar depois da venda do sorvete. Mas voltando, o filme começa. Cinco ou dez minutos depois é que me dou conta de que não tem legenda. Aqui é tudo ou nada!
Coisa muito estranha daqui também é a numeração de ruas. Eu só conhecia dois sistemas ocidentais: o americano (por distância) e o europeu (por edificação). Bom, aqui, só de sacanagem, adotaram uma variação muito bizarra do modelo europeu. Nos dois modelos que eu conhecia, os números estão separados pares e ímpares em cada lado e aumentam no mesmo sentido da rua. Aqui a coisa não é nem assim. Além do sistema inteligente, existem outros dois. Num deles não entendi a lógica oculta: os números são, por exemplo, pares, mas eis que, nas esquinas, aparecem números ímpares nas esquinas. Ou seja, se der o azar de o número que você está procurando ser numa esquina, você precisará de muita sorte para encontrá-lo rápido, ou vai ficar indo e vindo, cruzando a rua milhares de vezes sem saber o que está acontecendo. O outro sistema tem uma lógica, ainda que não muito esperta. Em muitas ruas de “Berlim oriental” – e isso só pode ser sistema soviético -, a numeração é contínua de um dos lados da rua, números pares e ímpares, tudo junto, 1, 2, 3, 4 etc., até o fim da rua, quando eles cruzam e continuam a contagem do outro lado no sentido inverso. Pra quem não entendeu, não tem problema, foi feito pra não entender mesmo. Ou seja: os número estão em sentido horário ou anti-horário, o que torna muito mais difícil saber em que altura um número está.
E já que o assunto é número, os de telefone aqui não têm tamanho certo. Podem ter 5, 6, 7 ou 8 dígitos. Os celulares em geral têm mais, uns 12. E eles agrupam do jeito de que gosta mais. Pode ser 0000-0000, 00-0000-00, 00000-000 ou como quiser, variando também no tamanho, claro.
No metrô, não tem catracas, cancelas, portas, nada. Você desce as escadas e já está na plataforma, com os trens passando. Não tem milhares de escadas, caminhos, curvas e esquinas subterrâneas para lojinhas. É só plataforma e trem. Bem alemão: só o necessário. As passagens você compra em maquininhas, não tem ninguém pra ajudar. Depois o bilhete você enfia numa outra coisa, que o valida. Só então pode subir no trem. A primeira vez, me ocorreu o que deve a maioria estar pensando agora: e se eu subir no trem sem pagar? Ainda no Goethe, aprendi que o controle é feito pela figura sinistra do Herr Kontroleur (lê-se como em francês). É um sujeito que fica viajando de metrô o dia inteiro, à paisana, e que, lá pelas tantas, se apresenta aos passageiros e pede que lhe mostrem o bilhete válido. Antigamente era um senhorzinho, mas vi anúncios dizendo que agora pode ser qualquer pessoa, de qualquer idade. Me disseram que já viram até vestido de malandro, com bermudão de esqueitista. Se pegar sem passagem, são 40 euros a multa. Até que é tão alta, considerando que a passagem custa 1,30 ou 2,10 por cada viajem (depende se é curta ou longa). É meio caro. Mas tem a opção, para os residente, de fazer um abonnement anual ou Abo, para os mais íntimos. Eu fiz um. Você preenche um formulário da internet e vai até um lugar bem estranho perto da Alexanderplatz (para quem não sabe, é onde fica a Torre de TV, símbolo da Berlim socialista), na rua Rosa Luxemburg – tudo bem comunista. É fácil reconhecer onde é: tem uma fila enorme de gente estranha que parece não andar. Acho que levou bem mais de uma hora. Tudo em nome da sovinhice. Na fila tinha de tudo: Patricinha falando alto ao celular, um adolescente espinhudo empurrando um carrinho com um bebê (a chupeta da criança caiu no chão da calçada e o suposto teenage-parent limpou na manga do moletom encardido e enfiou de volta na boca do pequeno), um sujeito que devia ser desempregado já no comunismo (ele usava uma calça de moletom cinza puxada no meio do peito, uma camiseta que deveria estar num museu, comemorativa de algum aniversário de Berlim e o cabelinho dele não via água desde a queda do muro pelo menos), além de gordos, magros, feios e pessoas mais parecidas com o que consideramos normal. Leva muuuito tempo pra ser atendido nesse “poupa-tempo” deles. No fim, você tem acesso a um dos 3 (sim, 3) atendentes, confortavelmente instalados em suas mesas. Eu fui atendido por uma tia magrela esquisitona com cabelo do Rod Stewart e mega eficiente. Levou menos de 5 minutos (daí você não entende muito a fila). Saí de lá com meu Startkarte de 30 euros. Com ele ando em qualquer meio de transporte público (aqui são vários: ônibus, metrô, trem de superfície, bonde -!!- e barco), qualquer hora do dia ou da noite, e, depois das 20h e fins de semana, posso levar um adulto e/3 crianças comigo.
Por fim, uma última curiosidade. Nas casas, além do velho conhecido interruptor do banheiro que os europeus insistem em deixar do lado de fora, acho que só para que as crianças tenham uma bobagem a mais pra fazer, as janelas alemãs guardam uma excentricidade e são um desafio para os estrangeiros. Elas abrem de duas formas distintas, como uma porta ou como um vitrô. Às vezes, isso se aplica também às portas. Fechadas, o mundo exterior está isolado. A idéia impedir completamente toda troca molecular com o mundo além-janela/porta. Não passa ar, nem som, nem furmiguinha. Aliás, em vários apartamentos que visitei para alugar, o banheiro tinha mais de uma porta. Pelo menos a mania excêntrica – e porquinha – dos ingleses e franceses de fazer banheiro sem vaso eles não adotaram com tanto afinco!
Escrito por S.