Está pra fazer um mês que cheguei. O verão dá os últimos suspiros, a temperatura à noite já encosta nos 10 graus, e o sol pouco a pouco se transforma numa lâmpada de geladeira: ilumina, mas não esquenta. A cidade continua a surpreender.
Os alemães atuais têm a má sorte de descender de ancestrais e, pelo que dizem, ter os vizinhos austríacos para dividir a língua. Levaram a fama de mal-educados, carrancudos, frios, calculistas, grosseiros. A maioria não consegue imaginar um alemão que fale sem gritar como um soldado nazista. Aliás, no rio na frente da minha sala na embaixada, passam uns barquinhos de turistas, tipo bateau-mouche. Tudo muito bucólico, até que o guia resolve dar explicações aos turistas. Olha, alemão falado em megafone faz qualquer um sentir-se na Lista de Schindler. Muito sobrevivente deve ter arrepios só de passar perto.
Superado o senso comum e o estigma holliwoodiano, o alemão não corresponde à imagem negativa. São muito gentis, educados e arriscaria dizer que são simpáticos. Os poucos que conheci até agora são muito legais. A parte que é verdade é que são organizadíssimos. Claro que em todo lugar existe gente de todo tipo. O proprietário do apartamento que quero alugar, por exemplo, deveria ter nascido no Brasil. Pra começar, ele atrasou mais de 5 minutos pro nosso encontro. Depois, marcou uma reunião com outra pessoa, para meia hora mais tarde e mal conseguiu terminar de tratar do apartamento comigo. Ou seja: praticamente um latino. Mas essa deifinitivamente não é a regra. Pontualidade aqui não é nem assunto. Brasileiro, especialmente carioca, é aberração: pro alemão é incompreensível o conceito de marcar hora e a pessoa chegar depois. E não é que eles fiquem bravos ou chateados, eles simplesmente não entendem como você marca um horário e chega em outro horário.
Uma vez, fui ver um apartamento. Combinei com o corretor às 14:30 no escritório dele. Acontece que eu não sabia que a estação de metrô mais próxima (Friedrichstraße) é uma mini-Sé e que o lugar aonde eu ia era simplesmente no fim da rua ou no fim do mundo. Conclusão: me atrasei 10 minutos. Escândalo, tragédia, hecatombe. Quando cheguei, a mocinha que me recebeu disse que o Herr Fulano tinha acabado de sair, por achar que eu tinha desistido. O que me chocou mesmo, entretanto, foi mais tarde descobrir na minha caixa de entrada, um e-mail dele, enviado às 14:34, em que ele perguntava se eu não teria interesse em outros apartamentos, tendo em vista que eu havia desistido de visitar aquele que ele me mostraria. Como assim?! Em menos de 4 minutos, o sujeito concluiu que eu não iria, deu-se ao trabalho de me mandar um e-mail e se mandou! A mocinha ficou toda sem-graça, quando viu que eu não tinha gostado de perder a viagem. No fim, ela mesma mostrou o apartamento, depois de um sonoro uau! ao descobrir que eu sou do Brasil. Ao que consta, estamos na moda. O apartamento mais parecia uma casa-grande. Só faltava a senzala. O pé direito, sem brincadeira, devia passar dos 5 metros. Num dos cômodos, tinha até mesanino. A única utilidade que vi pra aquilo era dar uma festa e pôr o DJ ali em cima. O hall de entrada tinha 6,5×6,5, com uma clarambóia de no mínimo 2×2, láááá no alto. Um dos banheiros (havia vários) parecia de fazenda. Tinha até bidê! e comportava com folga um sofá e uma mesa. Imaginem a conta de calefação… (em outro momento conto como é procurar um apartamento aqui)
Tudo isso pra dizer que eles são pontuais, no sentido mais absoluto da expressão. Tanto que, quando cheguei para encontrar o proprietário do apartamento (aquele que deveria ser brasileiro), às 14:32 e ele não estava, pensei que ele poderia ter já ido embora ou desistido do negócio. Claro, depois de que um gordo ruivo que vinha instalar os aplicativos do banco no computador ligou pra se desculpar e avisar que atrasaria 5 (sim, 5) minutos, a gente começa a ficar preocupado também com os horários. O problema de conviver com neuróticos, é que neurose pega.
Importante dizer que essa pontualidade toda só se viabiliza, porque todo mundo coopera e sofre da mania nacional do planejamento, de que já falei antes. Improvisar não é com eles. Aliás, em alemão o verbo só existe numa forma latina improvisieren. Em alemão mesmo, improvisar se traduz pela expressão aus dem Stegreif schaffen, [algo como "criar a partir do improviso", ainda que Stegreif não seja improviso], o que é tão comprido, que é melhor mesmo não improvisar. E eles agradecem. Quer ver um choque cultural?, quando um alemão lhe perguntar quando você gostaria de fazer alguma coisa, responda um simples jetzt [agora] e verá a crise se instalar. Antes é preciso planejar e marcar o horário, provavelmente para daqui a uns dias, preferencialmente semana que vem. Eles nunca vão te oferecer para o mesmo dia, ainda que tenham o horário, pois vão achar que isso te atrapalhará completamente a vida, além de ser muito estranho.
O Rodrigo uma vez brincou que no dia seguinte à destruição de Berlim já havia umas senhorinhas limpando tijolos para reconstruir tudo. Agora imagino que elas fizeram isso mesmo, mas não no dia seguinte. Antes houve uma reunião em que foi decidido quem ia limpar quantos tijolos, quando e como. Alemão não faz nada pela metade e faz apenas uma vez. Não tem essa de fazer mais ou menos e depois vai ajeitando. Então as coisas são todas muito fortes, com cara de que resistem a guerra nuclear. Em caso de uma, só ficarão as baratas e os objetos hergestellt in Deutschland [made in Germany]. Com o que gastam pra fazer uma porta aqui, fazemos umas 5 no Brasil. E a porta do banheiro e a da cozinha são tão maciças quanto as da rua, com dobradiças que serviriam para porteira e fechaduras que precisam de meia Carajás pra ser produzidas. Tudo muito bem acabado, muito bem construído. No fim, dificilmente alguma coisa será feia.
À exceção óbvia dos carros, estética não é prioridade nacional. O que importa é qualidade e funcionalidade. Seriam o anti-Niemeyer, ainda que o sobrenome do fdp seja ironicamente alemão e que poucas coisas dele se enquadrem na categoria bonito (me desculpem os entusiastas). De qualquer maneira, é inegável que a maioria aqui tem estilo. Se gostamos dele é outra estória, especialmente se o referencial forem padrões mais ortodoxos. Existe muita gente doidona, “largada” e estilos que consideramos alternativos ou de que temos muito pouco no Brasil, como punk e gótico. A maior diferença, entretanto, para quem vem da América Latina, me arriscaria afirmar, é a aparente ausência de sensualidade. Parece que ninguém está ligando pra isso aqui. No caso dos homens, até que não choca tanto, pois é tudo mais ou menos a mesma coisa no mundo inteiro. Já as alemoas são muito sem vaidade nenhuma, sem maquiagem e umas roupinhas de quem vai visitar os avós. Agora entendo porque latinas às vezes são confundidas por prostitutas: aqui, mulher vestida do jeito que esperamos encontrar no Brasil ou em outros lugares mais parecidos com a gente, você vê na Oranienbürgerstraße [isso tudo é o nome de uma rua], batendo ponto, de espartilho (tá, isso não é muito parecido com o Brasil).
Por falar na Oranienbürgerstraße, as moças nas calçadas são o que menos chama atenção ali, um dos redutos mais bizarros da cidade. À primeira vista, parece apenas uma rua, como tantas outras, com vários restaurantes e bares, bastante movimento, agito. Em outro momento histórico, era o coração da maior concentração de judeus em Berlim, do que são testemunha edifícios judeus, entre os quais a Neue Synagoge [Nova Sinagoga], um prédio muito bonito, do século XIX, que quase foi demolido durante o nazismo e que sofreu com os bobardeios da guerra. O que mais chama atenção na rua, entretanto, é a Kunsthaus Tacheles, ou apenas Tacheles para os locais (isso é só um nome, não tem tradução – e é uma proparoxítona). Trata-se de um prédio de cinco andares, que no Brasil teria virado cortiço, mas aqui virou o que é. Imaginem um daqueles prédios que vemos em filmes preto e branco da segunda guerra, com as escadas em torno de um vão central. Daqueles prédios que os soldados vão subindo andar por andar, arrombando as portas pra procurar perseguidos do regime. Agora imaginem que passou a Guerra, um terremoto, um maremoto, peste bubônica, gripe espanhola e mais alguma desgraça e que ninguém deu uma ajeitada no prédio esse tempo todo. Agora imaginem que um bando de maluqueiros ocupou o prédio, não para morar, só para ocupar mesmo, tirar uma onda, e um dia decidiram Uhu! Vamos pixar tudo! O resultado é um prédio antigo, caindo aos pedaços, cujas paredes internas não são mais visíveis, pois não há centímetro quadrado que não esteja pixado. Esse prédio é aberto ao público da rua, a quem quiser entrar. Não tem porta nenhuma. Lá dentro, encontramos galerias de artistas plásticos malucões, lojinhas com nada comprável, bares e até um cinema alternativo. Muito alternativo. O aspecto é sujo (em alguns pontos da escadaria senti um odorzinho de urina velha) e o cheiro de maconha às vezes rola forte. Tem também uns maluqueiros que ficam parados ali nos andares, olhando pra cara da muita gente que passa – afinal, acreditem, é ponto turístico -, provavelmente esperando compradores para drogas.
Enfim, isso é Berlim: a duas quadras dali está a Museuminsel [ilha dos museus], um dos lugares mais bonitos da cidade, com prédios históricos lindíssimos, restauradíssimos e com policiamento 24h.
Escrito por S.